O Rio Grande do Sul vive hoje um momento de profundas transformações e contrastes na estrutura familiar de sua população.
De um lado, uma dura e persistente realidade: cerca de 7,5 mil crianças nascem todos os anos no estado sem o nome do pai na certidão. De outro, uma onda de responsabilidade ganha força — um número cada vez maior de homens tem procurado espontaneamente os Cartórios de Registro Civil para reconhecer oficialmente a filiação de seus filhos, sinalizando uma importante mudança de comportamento na sociedade gaúcha.
Impulsionado pela modernização do sistema e pela implementação de uma nova plataforma digital para a prática do ato, o estado caminha para alcançar, em 2026, o maior número de reconhecimentos voluntários de paternidade de sua história recente. A projeção aponta para cerca de 3,3 mil reconhecimentos espontâneos até o fim do ano — um crescimento expressivo de quase 15% em relação ao recorde anterior de 2025 e um salto impressionante de 570% em comparação a 2021.
Salto de 570% em cinco anos
Segundo dados de um levantamento da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil), entre 2021 e julho de 2026, exatamente 8.931 cidadãos gaúchos tiveram sua paternidade oficialmente reconhecida.
A evolução ano a ano mostra a aceleração vertiginosa desse movimento:
- 2021: 440 reconhecimentos
- 2022: 915 reconhecimentos
- 2023: 1.200 reconhecimentos
- 2024: 1.555 reconhecimentos
- 2025: 2.952 reconhecimentos (recorde até então)
- 2026 (até julho): 1.671 reconhecimentos
Com o ritmo mantido ao longo do segundo semestre, a expectativa da Arpen-Brasil é que o volume de 2026 seja praticamente oito vezes maior do que o registrado há cinco anos.
Para ampliar ainda mais esse movimento, os Cartórios de Registro Civil passaram a oferecer, neste ano, uma plataforma eletrônica que permite iniciar o procedimento de reconhecimento voluntário de paternidade pela internet, pelo site https://paternidade.registrocivil.org.br.
A novidade reduz barreiras geográficas, facilita o acesso para famílias que vivem em cidades diferentes e amplia a possibilidade de regularização da filiação sem a necessidade de um primeiro atendimento presencial.
“Ampliar o acesso ao reconhecimento de paternidade é promover o direito à identidade de milhares de brasileiros. Quanto mais simples e acessível for esse procedimento, maiores serão as chances de que pais regularizem voluntariamente a filiação de seus filhos, garantindo todos os direitos inerentes a essa relação”, afirma o presidente da Arpen-RS, Pedro Di Iulio Ilarri.
Muito além do nome na certidão
O avanço demonstra que cada vez mais pais estão compreendendo a relevância da regularização espontânea da filiação. O ato vai muito além da inclusão formal de um sobrenome no documento original.
Especialistas e registradores reforçam que a formalização da paternidade assegura uma série de direitos fundamentais para o desenvolvimento e a proteção do filho, tais como:
- Identidade civil completa e fortalecimento dos vínculos afetivos e familiares;
- Direitos sucessórios e de herança;
- Garantia de acesso à pensão alimentícia e assistência material;
- Direito a benefícios previdenciários e inclusão em planos de saúde;
- Segurança jurídica ampliada para o núcleo familiar.
O desafio persistente da maternidade solo
Apesar da virada histórica e dos avanços conquistados pela facilitação digital, o cenário estatístico alerta que o desafio gaúcho ainda é expressivo. Desde 2021, a média de crianças registradas sem a identificação do pai permanece alta:
- 2021: 7.597 registros sem o nome do pai
- 2022: 7.359 registros
- 2023: 7.687 registros
- 2024: 7.331 registros
- 2025: 7.574 registros
- 2026 (até 28 de julho): 4.634 registros
Os dados revelam que, anualmente, milhares de bebês ainda iniciam a vida sob a responsabilidade exclusiva das mães. Para as entidades cartorárias, simplificar e desburocratizar o acesso ao reconhecimento voluntário — inclusive por meios digitais — é a chave principal para garantir dignidade e cidadania a essas crianças.




