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Brasil e Itália podem estreitar relações políticas e econômicas após eleições brasileiras 

Avanço da direita nas urnas e aproximação econômica entre os dois países podem ampliar oportunidades para empresas e milhões de descendentes de italianos no Brasil.

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Foto: Freepik

O resultado do primeiro turno das eleições brasileiras de 2026 abriu uma nova perspectiva para as relações entre Brasil e Itália.

Com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial, os dois candidatos avançaram para o segundo turno, marcado para 25 de outubro. Ao mesmo tempo, o PL saiu das urnas como a maior força da próxima legislatura, com 121 deputados federais e 28 senadores, consolidando uma presença expressiva no Congresso Nacional.

O resultado não significa, por si só, que o Brasil tenha se tornado definitivamente um país de direita. A eleição presidencial ainda será decidida no segundo turno e o eleitorado continua dividido entre diferentes correntes políticas.

Para Welliton Girotto, CEO da Master Cidadania, porém, o desempenho das urnas demonstra que a direita brasileira mantém uma base eleitoral relevante e capacidade de influência institucional, cenário que pode produzir novas convergências internacionais caso esse campo político conquiste também o governo federal.

“Não estamos falando que o Brasil está simplesmente copiando a Itália ou que os dois países terão exatamente a mesma orientação política. A questão é que podemos estar diante de uma aproximação de visões sobre temas como família, segurança, identidade nacional, soberania e defesa dos interesses econômicos. Se o resultado das urnas levar essa mudança também ao governo federal, Brasil e Itália poderão encontrar mais pontos de convergência”, afirma Girotto.

Brasil, Itália e Estados Unidos em um novo cenário internacional

A possibilidade de aproximação ganha relevância quando observada a partir da atual política italiana. Desde que Giorgia Meloni chegou ao cargo de primeira-ministra, em 2022, a Itália passou a adotar uma agenda política mais conservadora em temas como imigração, segurança, identidade nacional e defesa dos interesses econômicos do país.

Ao mesmo tempo, o governo italiano manteve a participação do país na União Europeia e estreitou relações com os Estados Unidos. Na avaliação de Girotto, uma eventual vitória da direita brasileira poderia aproximar politicamente Brasília e Roma em determinados temas, criando também uma terceira conexão com Washington.

“Não seria uma aliança formal entre Brasil, Itália e Estados Unidos, mas poderíamos ter três governos com interesses e visões semelhantes em algumas áreas estratégicas. Isso poderia aumentar a relevância da relação entre Brasil e Itália, principalmente se essa proximidade política vier acompanhada de negócios, investimentos, transferência de conhecimento e circulação de profissionais”, explica.

Para o executivo, entretanto, a principal oportunidade não está apenas na política. A aproximação entre os países pode ganhar dimensão mais duradoura se for transformada em relações comerciais e empresariais.

Itália amplia presença econômica no Brasil

A movimentação do governo italiano em direção ao mercado brasileiro já demonstra que existe interesse econômico independentemente do resultado eleitoral.

Em setembro, o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, esteve em São Paulo acompanhado por uma delegação de mais de 100 empresas italianas. A missão foi apresentada pelo governo italiano como parte da estratégia de fortalecimento da presença econômica do país em mercados considerados prioritários para suas exportações.

A Itália é atualmente a terceira maior economia da zona do euro e possui uma das principais bases industriais da Europa. Segundo o Ministério das Relações Exteriores italiano, as exportações do país alcançaram 675 bilhões de euros em 2024. A indústria italiana reúne setores como máquinas e equipamentos, automação, farmacêutico, aeroespacial, construção naval e engenharia, além de segmentos tradicionalmente associados ao país, como moda, alimentos, móveis e vinhos.

“O Brasil tem escala, mercado consumidor, recursos naturais, indústria, agricultura e energia. A Itália tem tecnologia, conhecimento, capacidade industrial e acesso ao mercado europeu. Existe uma complementaridade muito grande entre as duas economias. O desafio é transformar essa complementaridade em negócios concretos”, afirma Girotto.

Segundo ele, o potencial não está apenas nas grandes companhias. Uma parcela significativa da economia italiana é formada por pequenas e médias empresas altamente especializadas, muitas delas com tecnologia e produtos competitivos internacionalmente, mas ainda pouco conhecidas pelo público brasileiro.

Descendentes de italianos podem assumir novo papel

É nesse ponto que os milhões de brasileiros descendentes de italianos ganham importância estratégica. Durante décadas, a relação dessa população com a Itália foi observada principalmente pela perspectiva da cidadania: identificação da origem familiar, levantamento de documentos, reconhecimento da descendência e recuperação do vínculo jurídico com o país.

Para Girotto, esse vínculo pode representar uma oportunidade muito maior.

“Eu prefiro que comecemos a enxergar os descendentes de italianos não apenas como pessoas ligadas à Itália pela história familiar, mas como um enorme capital humano capaz de aproximar economicamente os dois países. A cidadania é importante, mas ela pode ser o começo de uma relação, e não o ponto final”, afirma.

A cidadania italiana pode ampliar as possibilidades de brasileiros que desejam estudar, trabalhar, empreender ou investir na Europa. Como cidadãos da União Europeia, os italianos possuem direitos de circulação e residência dentro do bloco, o que cria condições diferentes para quem pretende desenvolver uma trajetória profissional ou empresarial no continente.

Para um empresário brasileiro de origem italiana, essa conexão pode assumir uma dimensão ainda mais prática. Em vez de olhar para a Itália apenas como o país de origem de seus antepassados, ele pode identificar oportunidades de negócios, fornecedores, parceiros tecnológicos, empresas industriais e centros de pesquisa.

“Um descendente pode visitar a cidade onde nasceu seu bisavô para conhecer a história da família, mas também pode fazer uma segunda pergunta: o que essa região produz hoje? Talvez exista ali uma empresa que desenvolve uma tecnologia que não chegou ao Brasil. Ou uma indústria que procura um parceiro para entrar no mercado brasileiro. Nesse caso, a história familiar deixa de ser apenas memória e passa a ser uma ponte econômica”, diz o CEO da Master Cidadania.

Da cidadania à construção de negócios

A própria estrutura econômica italiana oferece diferentes possibilidades para investidores estrangeiros, incluindo abertura de empresas, instalação de filiais, participação em companhias já existentes e formação de parcerias comerciais e industriais.

O país também se apresenta como uma porta de entrada para um mercado europeu de cerca de 500 milhões de consumidores.
Nesse contexto, a comunidade de descendentes de italianos no Brasil pode funcionar como uma rede de conexão entre mercados.

São empresários, profissionais, investidores e jovens que possuem vínculos familiares, culturais e, em muitos casos, jurídicos com a Itália.

“Durante muito tempo, a principal pergunta foi quantos brasileiros descendentes de italianos poderiam reconhecer sua cidadania. Acho que precisamos começar a fazer uma segunda pergunta: o que esses brasileiros podem construir entre Brasil e Itália depois dela?”, questiona Girotto.

Na avaliação do executivo, uma eventual mudança na orientação política brasileira pode acelerar um processo que já possui fundamentos econômicos. A manutenção da atual política italiana, somada a uma possível convergência entre os governos, poderia criar um ambiente mais favorável para o fortalecimento das relações bilaterais.

O resultado, porém, dependerá menos dos encontros diplomáticos e mais da capacidade de transformar aproximação política em investimentos, comércio, inovação, educação e geração de oportunidades.

“Os presidentes e primeiros-ministros mudam. Empresas, investimentos, empregos e relações comerciais podem durar décadas. Se Brasil e Itália conseguirem transformar uma eventual aproximação política em uma agenda econômica de longo prazo, os ganhos podem ultrapassar qualquer ciclo eleitoral”, afirma.
Para Girotto, os descendentes de italianos podem estar no centro desse processo.

“O Brasil tem uma das maiores populações de origem italiana do mundo. A Itália tem indústria, conhecimento, tecnologia e acesso ao mercado europeu. As duas pontas já existem. O que precisamos é conectá-las melhor. Os descendentes de italianos podem ser uma das maiores pontes econômicas entre Brasil e Itália nas próximas décadas.”

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