Neurologista aponta 5 sinais que podem ter relação com o autismo em adultos

Segundo o especialista, o autismo não desaparece, ele se adapta.

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Foto: Roberto Dziura Jr/AEN-PR

O TEA (Transtorno do Espectro Autista ) vai além da infância. É importante reconhecer os sinais de autismo em adultos, um grupo frequentemente invisível e que, muitas vezes, passa décadas sem o diagnóstico correto.

O Censo do IBGE de 2022 aponta que cerca de 1,2% da população do Brasil tem um diagnóstico de TEA. De acordo com o neurologista Edson Issamu Yokoo, diferentemente das crianças, cujo comportamento autista é mais visível, o adulto no espectro desenvolve estratégias de camuflagem social, conhecidas como masking.

“O autismo não desaparece, ele se adapta. O adulto autista gasta uma energia mental imensa tentando parecer neurotípico, o que leva à exaustão crônica e muitas vezes também a diagnósticos equivocados de ansiedade ou depressão”, ressaltou Yokoo.

Segundo o neurologista, os sinais em adultos, frequentemente mascarados, tendem a se manifestar não apenas em dificuldades diretas de comunicação, mas principalmente no colapso das funções executivas e no alto custo cognitivo e emocional.

A persistente tentativa de se adequar a normas neurotípicas levam a um quadro de exaustão e dificuldades na gestão da vida adulta.

O neurologista destacou cinco sinais para observar. Confira abaixo:

Exaustão pós-social

O esforço despendido para imitar interações sociais e disfarçar comportamentos associados ao TEA resulta em um esgotamento total. Esse cansaço não é apenas físico, mas mental e emocional, surgindo após eventos sociais, mesmo aqueles percebidos como breves ou “bem-sucedidos”.

“A necessidade de shutdown (retirada total) ou meltdown (sobrecarga com perda de controle) após a exposição social torna-se um padrão”, explicou o neurologista.

Dificuldade de autonomia

As funções executivas, que englobam planejamento, organização, priorização e execução, são frequentemente prejudicadas. Isso se traduz em uma luta constante com a organização de tarefas cotidianas e responsabilidades adultas.

“Alguns exemplos incluem a gestão financeira, o planejamento de rotinas complexas e a manutenção do lar. A chamada ‘paralisia da tarefa’ é a incapacidade de iniciar ou prosseguir com atividades importantes, mesmo quando a pessoa reconhece a urgência e a necessidade dela”, esclareceu o médico.

Rigidez cognitiva

A necessidade de previsibilidade e estrutura é uma característica central. Dificuldades extremas surgem ao lidar com imprevistos, mudanças de planos de última hora, interrupções inesperadas ou ruídos ambientais fora de controle.

“Esta inflexibilidade pode levar a altos níveis de estresse, ansiedade e manifestar-se como irritabilidade ou explosões emocionais, por vezes confundidas com transtornos de humor ou ansiedade generalizada”, ressaltou.

Sinais sensoriais discretos ou stimming

Stimming, termo que se refere a movimentos autoestimulatórios e repetitivos, funciona para regulação emocional e sensorial e na vida adulta não desaparece, mas se torna menos evidente e mais socialmente aceitável.

“Em vez de balançar o corpo inteiro ou bater as mãos, manifesta-se de formas sutis como balançar o pé incessantemente, morder a bochecha ou os lábios, torcer o cabelo, ou mexer e manipular pequenos objetos de forma repetitiva. A hipersensibilidade ou hipossensibilidade sensorial a luzes, sons, texturas e cheiros continua a impactar a qualidade de vida”, comentou Yokoo.

Falha na empatia intuitiva

Adultos autistas desenvolvem uma empatia cognitiva, baseada em regras lógicas. Eles sabem o que devem dizer ou fazer em uma situação social, por exemplo, dizer ‘meus pêsames’ em um funeral. Contudo, há uma dificuldade persistente em “ler nas entrelinhas” e interpretar os sinais não-verbais e as nuances emocionais mais sutis em relacionamentos.

“Isso pode levar a mal-entendidos, dificuldade em manter amizades profundas e a percepção, por parte de outros, de que são insensíveis ou excessivamente diretos. O hiperfoco em tópicos de interesse específico também pode dificultar a participação em conversas casuais”, explicou Yokoo.

Para muitos adultos, o diagnóstico de TEA vem após anos de sofrimento mental, crises de burnout ou após o diagnóstico dos próprios filhos. O diagnóstico tardio não tem como objetivo “curar”, mas sim oferecer um novo olhar sobre a própria história de vida.

“Ele traz a validação de que as dificuldades enfrentadas não são falhas de caráter ou mau humor, mas sim uma condição neurológica que exige estratégias de enfrentamento específicas”, concluiu o neurologista.

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