Segundo a tradição Guarani, Tupã criou a mulher a partir de um balaio. Essa relação simbólica está presente nas adjaka, cestas típicas dos Mbyá-Guarani produzidas em taquara e confeccionadas especialmente pelas mulheres das aldeias.
O Projeto Ar, Água e Terra, desenvolvido pelo IECAM (Instituto de Estudos Culturais e Ambientais), ajuda a manter esse conhecimento vivo em onze aldeias Guarani do Rio Grande do Sul, onde o artesanato continua sendo uma das principais formas de transmitir modos de viver, produzir e cuidar da floresta.
Além de manterem vivas as tradições por meio de sua expressão artística, o artesanato representa uma fonte de renda para as comunidades e estabelece um elo entre os saberes dos povos originários e a sociedade. Tradição que deve ser ressaltada quando se comemora o Dia Internacional dos Povos Indígenas, celebrado mundialmente em 9 de agosto.
Produzir uma cesta começa muito antes do trançado. É preciso conhecer a época correta para coletar cada fibra, preparar o material e dominar técnicas transmitidas entre mães, avós e crianças. Antes da retirada das plantas, a tradição prevê um pedido de permissão aos espíritos da floresta, reconhecendo que os recursos naturais não pertencem às pessoas, mas fazem parte de uma relação sagrada e de reciprocidade que precisa ser respeitada.
O mesmo acontece com as esculturas em madeira, produzidas pelos homens da aldeia. O jacaré simboliza o amor e a paz. O tucano representa o desejo de viver livre. O tamanduá traduz a busca pela tranquilidade. As esculturas carregam um ensinamento, e transmitem o respeito pela fauna e conexão espiritual na cultura Guarani.
O artesanato Guarani também acompanha cerimônias e momentos da vida cotidiana. Colares, pulseiras, cachimbos e instrumentos musicais ajudam a preservar formas de expressão e de proteção dos Guarani.
Gestão sustentável
A relação de respeito com a floresta também pode ser dimensionada ou quantificada quando se trata de um projeto que tem como objetivo central a gestão sustentável dos territórios e a restauração e reconvenção ambiental, valorizando os saberes tradicionais.
Nas comunidades participantes do Projeto Ar, Água e Terra, as áreas em recuperação ambiental triplicaram e hoje ultrapassam 30 hectares. As áreas destinadas à reconversão produtiva passaram de cinco para 26 hectares, enquanto mais de 60 mil mudas nativas foram plantadas e os viveiros comunitários produziram 30 mil.
O resultado aparece também na conservação de mais de 90% das áreas onde o projeto atua, contribuindo para proteger áreas estratégicas dos biomas Pampa e Mata Atlântica e para a captura de mais de 30 mil toneladas de dióxido de carbono (CO₂).
Além da recuperação ambiental, o Projeto Ar, Água e Terra promove intercâmbios entre as aldeias para ampliar a circulação de técnicas artesanais, sementes e conhecimentos tradicionais. O futuro também se constrói quando um povo aprende com seu passado.




